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Americanismo
Americanismo

“Há dois séculos um espelho norte-americano tem sido mostrado agressivamente no Sul com conseqüências inquietantes. Talvez seja hora de virar esse espelho.”

MORSE, Richard. "O espelho de Próspero"

 

“. . . Quem, o quê e como somos? Repetirei que não somos nada, exceto uma relação: alguma coisa que não se define a não ser como parte de uma história. A pergunta sobre o México é inseparável da pergunta sobre o futuro da América Latina e esta, por sua vez, insere-se noutra: a do futuro das relações entre ela e os Estados Unidos ( . . . ) . Há mais de um século que esse país se apresenta a nossos olhos como uma realidade gigantesca, mas quase nada humana. Sorridentes ou coléricos, com a mão aberta ou fechada, os Estados Unidos não nos ouvem nem nos olham; mas andam e, andando, enfiam-se pelas nossas terras e nos esmagam. É impossível deter um gigante; mas, embora também não seja fácil, não é impossível obrigá-lo a ouvir os outros: se escutar, abre-se a possibilidade da convivência. Em razão de suas origens (o puritano fala com Deus e consigo mesmo, não com os outros) e, sobretudo, do seu poderio, os norte-americanos sobressaem no monólogo: são eloqüentes e, também, conhecem o valor do silêncio. Mas a conversa não é o seu forte: não sabem nem escutar nem responder”.

PAZ, Octavio. "O labirinto da solidão"

 

“A explosão revolucionária é uma festa portentosa em que o mexicano, bêbado de si mesmo, conhece o fim, no abraço mortal, com outro mexicano”

PAZ, Octavio. "O labirinto da solidão"

 

“Por que Moctezuma cede? Por que se sente estranhamente fascinado pelos espanhóis e experimenta diante dele uma vertigem que não é exagero chamar de sagrada – a vertigem lúcida do suicida diante do abismo? Os deuses o abandonaram. A grande traição queinicia a história do México não é a dos tlaxcaltecas, nem a de Moctezuma e seu grupo, mas sim a dos deuses. Nenhum outro povo se sentiu tão totalmente desamparado quanto se sentiu a nação asteca em face dos avisos, das profecias e dos signos que anunciaram sua queda.”

PAZ, Octavio. "O labirinto da solidão"

 

“Nosso grito é uma expressão da vontade mexicana de viver fechados ao exterior, sim, mas sobretudo fechados em relação ao passado. Neste grito condenamos a nossa origem e renegamos o nosso hibridismo”

PAZ, Octavio. "O labirinto da solidão"

 

“Simular é inventar ou, melhor, aparentar e assim elidir a nossa condição. A dissimulação exige a maior sutileza: quem dissimula não representa, mas sim quer se tornar invisível, passar despercebido – sem renunciar ao seu ser. O mexicano excede no dissimulo de suas paixões e de si mesmo. Temente do olhar alheio, contrai-se, reduz-se, faz-se sombra e fantasma, eco. Não anda, desliza; não propõe, insinua; não replica, resmunga; não se queixa, sorri; até quando canta – se não explode e abre o peito – fá-lo entre dentes e à meia voz, dissimulando o seu canto . . .”

PAZ, Octavio. "O labirinto da solidão"

 

“Se a solidão do mexicano é a das águas paradas, a do norte-americano é a do espelho. Deixamos de ser fontes”.

PAZ, Octavio. "O labirinto da solidão"

 

“Gente de cercanias, moradores dos subúrbios da história, nós, latino-americanos, somos os comensais não convidados que se enfileiram à porta dos fundos do Ocidente, os intrusos que chegam à função da modernidade quando as luzes já estão quase apagando – chegamos atrasados em todos os lugares, nascemos quando já era tarde na história, também não temos um passado ou, se o temos, cuspimos sobre os seus restos; nossos povos ficaram dormindo durante um século, e enquanto dormiam foram roubados – agora estão em farrapos; não conseguimos conservar sequer o que os espanhóis deixaram ao ir embora; apunhalamo-nos entre nós...”

PAZ, Octavio. "O labirinto da solidão"

 

“Passaram os séculos, e a América Latina aperfeiçou suas funções. Este já não é o reino das maravilhas, onde a realidade derrotava a fábula e a imaginação era humilhada pelos troféus das conquistas, as jazidas de ouro e as montanhas de prata.”

GALEANO, Eduardo. "As veias abertas da América Latina"

 

“As classes sociais não podem preencher suas funções sociais desintegradoras tanto quanto suas funções construtivas sob essa modalidade predatória de capitalismo selvagem. As classes puderam preencher tais funções nos modelos europeu e norte-americano de revolução burguesa, porque as classes sociais submetidas à expropriação e à espoliação conquistaram o direito de serem ouvidas, de usar meios institucionais de protesto ou de conflito, e de manipular controles sociais reativos, mais ou menos eficazes, regulando assim a sua participação social nos fluxos de renda e nas estruturas de poder. As classes sociais falham, nas situações latino-americanas, porque operam unilateralmente, no sentido de preservar e intensificar os privilégios de poucos e excluir os demais. Elas não podem oferecer e canalizar socialmente “transições viáveis”, porque a “revolução dentro da ordem” é bloqueada pelas classes possuidoras e privilegiadas, porque as massas despossuídas estão tentando aprender como realizar a “revolução contra a ordem”, e porque o entendimento entre as classes tornou-se impossível, sem medidas concretas de descolonização acelerada (em relação a fatores externos e internos dos velhos e novos colonialismos). Elas promovem mudanças e inovações, em geral descritas erroneamente (como se fossem produtos estáticos da mobilidade social, da urbanização, da industrialização e da educação), através das quais a crosta superficial da ordem social competitiva adquire a aparência dos modelos históricos originais. Como não vão além disso, engendrando uma consciência e ações de classe negadoras da dependência, do subdesenvolvimento, dos privilégios, da opressão institucionalizada, do desemprego em massa e da miséria generalizada, elas se convertem em meios estruturais de perpetuação do capitalismo selvagem e de preservação do status quo.”

 

Florestan Fernandes, "Sociedade de classes e subdesenvolvimento", 1967, pp. 49-50.

 

“Las formas retrógradas de acumulación que impuso la inserción dependiente en el mercado mundial han deformado historicamente el desarollo regional. No hay carência de ahorro local, sino exceso de transferências hacia las economías centrales. El retraso agrario, la baja productividad industrial, la estrechez del poder adquisitivo han sido efectos de esta depredación imperialista. El principal drama latinoamericano  no es la pobreza, sino la escandalosa desigualdad social, que el capitalismo recrea en todos los países. La hipótesis de la inmadurez económica está desmentida por la coyuntura actual, que ha creado un gran dilema en torno a quién se beneficiará del crescimento en curso. Los neodesarrollistas buscan canalizar esta mejora a favor de los industriales y los neoliberales tratan de preservar las ventajas de los bancos. En oposición a ambas opciones, los socialistas deberían propugnar una redistribución radical de la riqueza, que mejore imediatamente el nível de vida de los oprimidos y erradique la primacía de la rentabilidade. Los recursos están disponibles. Hay un amplio margen para instrumentar programas populares y no solo condiciones para implementar cursos capitalistas.”

 

Claudio Katz. Socialismo e neodesarrollismo, 2006, pp. 4-5.

 

“Concorremos em busca desse capital fugidio, realizamos as privatizações, empenhamos os fundos públicos até a medula nos subsídios, praticando superávites fiscais suicidas, que são o lucro dos capitais especulativos, descuidando dos investimentos sociais e das políticas públicas, correndo permanentemente atrás dos prejuízos, e o capital brinca de gato e rato com nossos destinos nacionais”.

 

Francisco de Oliveira; “Prefácio crítico”; in: Rubens R. Sawaya. “Subordinação consentida”, p. 12

 

“Na ordem internacional emergente, o desenvolvimento nacional não está no horizonte de possibili9dades dos países periféricos. A comunidade internacional reduziu tudo que estiver fora dos megablocos regionais a cobiçados mercados emergentes ou reles zonas de pobreza. Na nova divisão internacional do trabalho, cabem às economias periféricas fundamentalmente três papéis: franquear seu espaço econômico à penetração das grandes empresas transnacionais; coibir as correntes migratórias que possam causar instabilidade nos países centrais; e aceitar a triste e paradoxal função de lixo da civilização ocidental. (...) Expostas à fúria da globalização e ao arbítrio dos países ricos, as sociedades latino-americanas ficaram sujeitas a mecanismos draconianos de neocolonização.”

 

Plínio de Arruda Sampaio Júnior. “Globalização e reversão neocolonial: o impasse brasileiro. In: Guillermo Hoyos Vasquez. Filosofia y teorias políticas entre la critica y la utopía. Buenos Aires: CLACSO, 2007, p. 147

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“A história me precede e se antecipa à minha reflexão. Pertenço à história antes de pertencer a mim mesmo”.

RICOEUR, Paul. Interpretação e ideologias. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S.A., 1977, p. 39.

 

 

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